quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Tempo da ação/ história - A corte no brasil

Tempo da História (século XIX - 1817) agitação social que levou à revolta liberal de 1820 - conspirações internas; revolta contra a presença da Corte no Brasil e influência do exército britânico; regime absolutista e tirânico classes sociais fortemente hierarquizadas; classes dominantes com medo de perder privilégios; povo oprimido e resignado; a "miséria, o medo e a ignorância"; obscurantismo, mas "felizmente há luar"; luta contra a opressão do regime absolutista; Manuel, "o mais consciente dos populares", denuncia a opressão e a miséria; perseguições dos agentes de Bereford; as denúncias de Vicente, Andrade Corvo e Morais Sarmento que, hipócritas e sem escrúpulos, denunciam; censura; severa repressão dos conspiradores; processos sumários e pena de morte; execução do General Gomes Freire.

Elementos simbólicos - "Felizmente hà luar!"

´
Saia verde: A saia associa-se à felicidade e foi comprada numa terra de liberdade: Paris. No Inverno, com o dinheiro da venda de duas medalhas. "alegria no reencontro"; a saia é uma peça eminentemente feminina e o verde encontra-se destinado à esperança de que um dia se reponha a justiça. O verde é a cor predominante na natureza e dos campos na Primavera, associando-se à força, à fertilidade e à esperança.
A luz - como metáfora do conhecimento dos valores do futuro (igualdade, fraternidade e liberdade), que possibilita o progresso do mundo, vencendo a escuridão da noite (opressão, falta de liberdade e de esclarecimento), advém quer da fogueira quer do luar. Ambas são a certeza de que o bem e a justiça triunfarão, não obstante todo o sofrimento inerente a eles. Se a luz se encontra associada à vida, à saúde e à felicidade. A luz representa a esperança num momento trágico.
Noite - Simboliza a escuridão, a morte, a tristeza,
O fogo - É um elemento destruidor e ao mesmo tempo purificador e regenerador, sendo a purificação pela água complementada pela do fogo. Se no presente a fogueira se relaciona com a tristeza e escuridão, no futuro relacionar-se-á com esperança e liberdade.
Moeda - Símbolo do desrespeito que os mais poderosos mantinham para com o próximo, contrariando os mandamentos de Deus.
Tambor – representa a presao, o medo, que existia nesse tempo quando chegava a policia.

Caracterização das personagens, "Felizmente Há Luar!"

D. Miguel Forjaz - Prepotente; autoritário; servil (porque se rebaixa aos outros); deixou-se corromper pelo poder. “Não sou, e nunca serei, popular. Quem o for é meu inimigo pessoal.” Simboliza a decadência do país que governa; A hipocrisia e a mesquinhez são as suas principais características; Enquanto governador de Lisboa, representa o espírito decrépito e caduco que impede a evolução do país e condiciona a sua existência enquanto nação. Principal Sousa - Defende o obscurantismo do povo para que os tiranos governem livremente; Deformado pelo fanatismo religioso; Desonesto; Representante do poder eclesiástico. Beresford - Cinismo em relação aos portugueses, a Portugal e à sua situação; Trocista e mordaz, despreza o país onde é obrigado a viver; Oportunista; autoritário; é bom militar; Preocupa-se somente com a sua carreira e com dinheiro; Ainda consegue ser minimamente franco e honesto, pois tem a coragem de dizer o que realmente quer, ao contrário dos 2 governadores portugueses; Odeia Gomes Freire, não porque o afronte enquanto oficial, mas porque o incomoda enquanto herói do povo. Vicente - Traidor para ser promovido; Acaba por ser um delator que age dessa maneira porque está revoltado com a sua condição social (só desse modo pode ascender socialmente); Representa a hipocrisia e o oportunismo daqueles que não olham a meios para atingir os seus fins; Reveste-se de um falso humanismo e de uma solidariedade duvidosa, para fomentar a ira popular contra Gomes Freire. Manuel - O mais consciente dos populares; É corajoso; Representa, metaforicamente, o povo português. Coexistindo com a miséria e a fome, protagoniza a consciência de um povo vilipendiado pela opressão, manifestamente impotente para alterar o seu destino. Sousa Falcão - Representa a amizade e a fidelidade; É o único amigo de Gomes Freire de Andrade que aparece na peça; Ele representa os poucos amigos que são capazes de lutar por uma causa e por um amigo nos momentos difíceis; Representa a impotência perante o despotismo dos governadores. Frei Diogo Melo - Homem sério; Representante do clero; Honesto – é o contraposto do Principal Sousa. Matilde de Melo - Representa uma denúncia da hipocrisia do mundo e dos interesses que se instalam em volta do poder (faceta/discurso social); Por outro lado, apresenta-se como mulher dedicada de Gomes Freire, que, numa situação crítica como esta, tem discursos tanto marcados pelo amor, como pelo ódio; Carácter forte; corajosa perante a vilania; Recusa a hipocrisia e odeia a injustiça e o materialismo. Gomes Freire de Andrade - Personagem virtual; Defensor do povo oprimido; O herói ; Símbolo de esperança de liberdade. Representa, simbolicamente, a integridade e a recusa da subserviência, a sua capacidade de liderança e os exemplos de coragem na defesa dos seus ideais remetem para o Portugal do passado, para o período áureo da Nação, que assumia convictamente a justiça da sua identidade e a veracidade da sua luta pela liberdade. Populares - Representantes do povo oprimido, sobre o qual era exercida a violência, funcionam como coro. As suas falas denunciam a pobreza e a ironia é a sua arma.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Estrutura Interna e Externa de "Felizmente há Luar!"

Estrutura Externa •A obra apresenta dois actos, não se encontrando, todavia, dividida em cenas. Referindo-se à organização bipolar da obra, José de Oliveira Barata afirma o seguinte: «Expressando-se dicotomicamente, mas evitando os prejuízos de uma apresentação maniqueísta, Sttau Monteiro transferia para a realidade cénica o verso e o reverso da complexa realidade sociopolítica que o país vivia.» ´ Estrutura Interna •«Felizmente há luar!» evoca uma época histórica em que ocorre um facto também ele histórico e protagonizado por uma figura histórica: a conspiração abortada de 1817 e na qual se destaca o general Gomes Freire de Andrade. •O conflito da peça nasce da oposição existente entre as “forças do futuro”, cuja figura central e emblemática é o referido General, símbolo da mudança, do progresso, da luta pela liberdade, e as “forças do passado”, representadas por Beresford, Principal Sousa e D. Miguel. •Verifica-se um paralelismo na construção dos dois actos: ambos iniciam com os monólogos patéticos de Manuel «o mais consciencioso dos populares» e símbolo do povo consciente e crítico. No acto I, as falas subsequentes ao monólogo transmitem informações relativas ao contexto histórico e, posteriormente, no acto II, reiterar-se-ão os aspectos já apresentados anteriormente.

Teatro Épico

O conceito de teatro épico diz respeito a um teatro didático que procura uma distanciação entre personagem e espectador para que este seja capaz de refletir e apreender a lição social proposta. Este conceito é apontado, por volta de 1926, pelo poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956), que opõe ao teatro clássico e tradicional (teatro aristotélico) um teatro narrativo que em vez de suscitar emoções e sentimentos desperta uma atitude crítica. O teatro épico, proposto por Brecht, contrapõe-se à tragédia clássica para melhor conseguir o efeito social. Enquanto o teatro clássico conduz o público à ilusão e à emoção, levando-o a confundir o que é a arte com a vida real, no teatro épico a "distanciação" deve permitir o envolvimento do espectador no julgamento da sociedade. Por isso, o teatro épico implica comprometimento, crítica contra o individualismo, consciencialização perante o sofrimento dos outros e a realidade social. Deve, na sua tarefa pedagógica, instruir os espectadores na verdade e incitá-los a atuar, alertando-os para a condição humana. O espectador deve ter um olhar crítico para se aperceber melhor de todas as formas de injustiças e de opressões.

Texto dramático

Texto Dramático é constituído por: •Texto principal composto pelas falas dos actores que é ouvido pelos espectadores; •Texto secundário (ou didascálio) que se destina ao leitor, ao encenador da peça ou aos actores. É composto: ◦pela listagem inicial das personagens; ◦pela indicação do nome das personagens no início de cada fala; ◦pelas informações sobre a estrutura externa da peça (divisão em actos, cenas ou quadros); ◦pelas indicações sobre o cenário e guarda roupa das personagens; ◦pelas indicações sobre a movimentação das personagens em palco, as atitudes que devem tomar, os gestos que devem fazer ou a entoação de voz com que devem proferir as palavras; Acção – é marcada pela actuação das personagens que nos dão conta de acontecimentos vividos. Estrutura externa – o teatro tradicional e clássico pressupunha divisões em actos, correspondentes à mutação de cenários, e em cenas e quadros, equivalentes à mudança de personagens em cena. O teatro moderno, narrativo ou épico, põe completamente de parte as normas tradicionais da estrutura externa. Estrutura interna: •Exposição – apresentação das personagens e dos antecedentes da acção. •Conflito – conjunto de peripécias que fazem a acção progredir. •Desenlace – desfecho da acção dramática. Classificação das Personagens: * Quanto à sua concepção: •Planas ou personagens-tipo – sem densidade psicológica uma vez que não alteram o seu comportamento ao longo da acção. Representam um grupo social, profissional ou psicológico); •Modeladas ou Redondas – com densidade psicológica, que evoluem ao longo da acção e, por isso mesmo, podem surpreender o espectador pelas suas atitudes. * Quanto ao relevo ou papel na obra: •protagonista ou personagem principal Individuais •personagens secundárias ou •figurantes Colectivas Tipos de caracterização: •Directa – a partir dos elementos presentes nas didascálias, da descrição de aspectos físicos e psicológicos, das palavras de outras personagens, das palavras da personagem a propósito de si própria. •Indirecta – a partir dos comportamentos, atitudes e gestos que levam o espectador a tirar as suas próprias conclusões sobre as características das personagens. Espaço – o espaço cénico é caracterizado nas didascálias onde surgem indicações sobre pormenores do cenário, efeitos de luz e som. Coexistem normalmente dois tipos de espaço: •Espaço representado – constituído pelos cenários onde se desenrola a acção e que equivalem ao espaço físico que se pretende recriar em palco. •Espaço aludido – corresponde às referências a outros espaços que não o representado. Tempo: •Tempo da representação – duração do conflito em palco; •Tempo da acção ou da história – o(s) ano(s) ou a época em que se desenrola o conflito dramático; •Tempo da escrita ou da produção da obra – altura em que o autor concebeu a peça. Discurso dramático ou teatral: •Monólogo – uma personagem, falando consigo mesma, expõe perante o público os seus pensamentos e/ou sentimentos; •Diálogo – falas entre duas ou mais personagens; •Apartes – comentários de uma personagem que não são ouvidos pelo seu interlocutor. Além deste tipo de discurso, o tecto dramático pressupõe o recurso à linguagem gestual, à sonoplastia e à luminotécnica. Intenção do autor - pode ser: •Moralizadora; •Lúdica ou de evasão; •Crítica em relação à sociedade do seu tempo; •Didática. Formas do género dramático: •Tragédia •Comédia •Drama •Teatro Épico. Outras características: •Ausência de narrador. •Predomínio do discurso na segunda pessoa (tu/vós).

Vida e Obra de Sttau Monteiro

Luís Infante de Lacerda Sttau Monteiro, mais conhecido entre nós por Luís de Sttau Monteiro, nasceu em Lisboa a 3 de Abril de 1926 na Rua de Liverpool, facto que mais tarde aproveitará para brincar, dizendo:"Sou tão estrangeiro que até nasci na Rua de Liverpool". Filho de jurista, professor catedrático e diplomata, Armindo Monteiro, e de uma senhora da confluência da nobreza espanhola e portuguesa, teve junto da família uma infância e juventude onde os problemas económicos não se colocavam. Com apenas dez anos de idade, o pai foi nomeado embaixador em Inglaterra, deslocando-se assim para Londres, onde viveu até 1943, altura em que salazar o demite do cargo por ser simpatizante do regime inglês. A estada em Londres exerceu forte influência na personalidade de Sttau Monteiro e, consequentemente, em toda a sua vida e obra. Aí teve o primeiro contacto com a dura realidade da guerra pois, na altura, Inglaterra era o palco da Segunda Guerra Mundial. É desta época que remonta o seu repúdio pelo horror das guerras, não compreendendo os espíritos mesquinhos que as comandam. De volta a Portugal, estuda num colégio de Jesuítas em Santo Tirso, do qual é expulso, e continua os estudos no Liceu Pedro Nunes. Apesar do seu gosto pela matemática, a influência dos familiares leva-o a seguir as pegadas de seu pai tirando, assim, o curso de Advocacia na Faculdade de Direito de Lisboa. Contudo, não se sente realizado e, por isso, é breve a sua passagem pelo Direito. O fascínio por Londres e por tudo o que lá aprendeu mantém-se bem vivo. Por isso, resolve voltar a esta cidade onde casa com uma senhora inglesa e se torna corredor de Fórmula 2. Dedica-se também à pesca e à gastronomia. De novo em Portugal e incentivado por autores como José Cardoso Pires, começa a escrever para o Almanaque em 1960, sob o pseudónimo de Manuel Pedroso. Esta data representa um marco fundamental na carreira literária de Sttau Monteiro. Data de 1960 o seu primeiro romance, Um homem não chora. No ano seguinte, escreve Angústia para o jantar e o drama Felizmente há Luar!, que lhe valeu os primeiros Grandes Prémios de Teatro da Sociedade Portuguesa de Escritores da Fundação Calouste Gulbenkian. A estes se seguiram outros textos, sobretudo dramas, que confirmaram as suas qualidades como escritor. Para além deste faceta, foi um conhecido jornalista, publicitário e gastrónomo. Foi durante longos anos colaborador do Diário de Lisboa, Diário de Notícias e O Jornal. Em 1982 viu a sua novela Agarra o Verão Guida, Agarra o Verão dar origem à telenovela Chuva na Areia. Tornou-se conhecido do grande público, através da sua participação no concurso televisivo A Cornélia, no qual fazia de júri. Foi este grande homem multifacetado, de espírito irreverente e combativo, cultivando uma grande paixão pela vida, que Lisboa viu desaparecer, precocemente, a 27 de Julho de 1993.